(crédito: Material cedido ao Correio)

Com a expectativa de vacinação contra a covid-19, a população vibra por um ano com mais motivos para comemorar. No entanto, especialistas e médicos alertam que a pandemia não acabou e os cuidados devem ser redobrados neste período de férias. O epidemiologista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Walter Ramalho afirma que a segunda quinzena de janeiro deve ser marcada com a alta de casos, resultado das comemorações de final de ano e viagens. “Nossa maior preocupação são com as aglomerações, principalmente, em festas clandestinas, que temos visto ocorrer”, afirma Walter. Para ele, a população relaxou nos últimos meses com as medidas de proteção e com a chegada da vacina. “É um movimento muito preocupante, nós só podemos ter uma vida ‘normal’ quando todos estiverem vacinados. Não podemos baixar a guarda. Não temos a vacina, temos uma promessa de vacina para um grupo considerado de risco”, ressalta.

Pesquisadores de diferentes instituições do país, incluindo Tarcísio M. Rocha Filho e Walter Ramalho, da UnB, estimou o impacto da demora da aplicação de um imunizante contra a covid-19 no Brasil. “Nos perguntamos quanto custa, em vidas, atrasar o início da vacinação, e estabelecemos cenários a partir dessa dúvida. Utilizando como base a suposição de que as doses fossem aplicadas em 1º de janeiro e levando em conta a situação da taxa de crescimento que tivemos no fim de dezembro, chegamos ao número de 10 mil brasileiros a mais morrendo — no cálculo final da pandemia — a cada semana de atraso de vacinações. Isso significa uma morte por minuto de espera, dentro dessas projeções”, explica Tarcísio Rocha, físico do Núcleo de Altos Estudos Estratégicos para o Desenvolvimento da UnB.

Enquanto não começam as aplicações, quem trabalha nos hospitais da capital lidando diretamente com a pandemia percebe a resposta das confraternizações de dezembro. “É necessário entender que toda medida tomada, seja a exposição às aglomerações ou o fechamento de atividades, tem resultados depois de uns 14 dias. Hoje, os números de contaminados estão aumentando, e os reflexos das festas de fim de ano estão se fazendo presentes, algo que, bem provavelmente, vai piorar”, lamenta Hemerson Luz, infectologista do Hospital das Forças Armadas (HFA). No Natal, por exemplo, a Secretaria de Saúde contabilizou 329 novas infecções em relação ao boletim anterior, do dia 24. Ontem, foram 962 novos casos em relação aos dois últimos boletins.

Ao todo, o mês de dezembro apresentou um aumento de 41,85% no número de infectados em comparação a novembro, no Distrito Federal. Foram identificadas 22.555 pessoas com a covid-19 contra 15.901 infectados no penúltimo mês de 2020. Nas duas últimas semanas de 2020, o Plano Piloto registrou 1.219 notificações, a maior alta entre as regiões administrativas. Para janeiro, o índice deve subir mais. Hemerson vê, na prática, os motivos dessas estatísticas. “Um grande número de pacientes meus dizem que estavam em reuniões de família, e uma das pessoas que também estava lá adoeceu. Ou seja, esse é o momento de seguir ao máximo todos os protocolos de distanciamento e segurança, para evitar a circulação desse vírus que está presente. Ainda temos muitas pessoas suscetíveis à contaminação”, alerta.

O especialista avalia que a segunda onda tem mostrado um número de internações um pouco menor de pacientes que procuram atendimento, mas lembra que pode haver pressão no sistema de saúde se cada vez mais pessoas precisarem de unidades básicas e hospitais. Nesse contexto, outra preocupação é a capacidade de atendimento adequado aos casos graves. “A taxa de ocupação de unidades de terapia intensivas (UTIs) tem aumentado a cada dia. Quando esse índice está acima de 70%, percebemos que se aumenta a letalidade da doença”, ressalta Hemerson.