Artigo: Quem vai quebrar primeiro?

Correio Braziliense

(crédito: Caio Gomez)

MARCELO COUTINHO – Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Como estamos cansados de saber, a história do capitalismo é repleta de crises. A última crise global foi em 2008, talvez a única que mereça usar mesmo esse nome, pois pegou a globalização já bastante adiantada. De lá para cá, outras crises menores aconteceram. A pandemia gerou um crash nas Bolsas de Valores do mundo todo em 2020, como também não se via havia muito tempo, mas foi um choque exógeno, isto é, não teve nada a ver com algum problema inerente ao sistema financeiro. Desde então, o mercado financeiro global cresceu enormemente, com uma política de afrouxamento monetário chamada de quantitative easing (QE).

Para impedir uma depressão econômica com os lockdowns, os bancos centrais emitiram muita moeda e aumentaram as compras de ativos financeiros, sobretudo, títulos do Tesouro e hipotecários. Isso, atrelado a uma desorganização nas cadeias de produção, provocou uma grande pressão inflacionária no mundo. Ou seja, a conta do afrouxamento monetário chegou agora pesada, e o Banco Central americano se viu obrigado a começar a aumentar o juro básico da economia e a promover o chamado tapering, que é a reversão do QE. Como resultado, o mercado de crédito começa a ser estrangulado.

Juros mais altos, crédito mais difícil. E, com financiamento mais caro, as grandes empresas e os fundos de investimento sofrem, além, é claro, da própria condição fiscal dos países endividados evoluir para situações bem problemáticas como o calote. Ainda não se chegou a um ponto limite nesse processo creditício. Pode levar meses para que haja de fato um risco sistêmico. Mas não há dúvida de que o fim do QE aumenta muito a probabilidade de recessão e de crash das Bolsas em algum momento. Já está em andamento uma gradativa erosão dos ativos financeiros. De praticamente todos, o que significa que toda a falsa riqueza criada pelo QE agora sofre uma destruição de valor.

O Brasil começou o seu aumento de juros antes do mundo todo. Já está no final desse movimento, enquanto outros apenas começam. Mas isso não quer dizer que o país já superou o risco sistêmico. Qualquer instabilidade maior no sistema financeiro global vai jogar o Brasil também no chão. Há o complicador da Guerra na Ucrânia. No entanto, o maior problema vem da China. A grande potência asiática foi a locomotiva do mundo nas duas últimas décadas. Isso mudou. O dragão mandarim perdeu o caminho do crescimento, e não foi por causa apenas da pandemia. A economia chinesa sofre uma grave desestruturação do seu setor imobiliário, responsável pela maior parte do crescimento.

A acentuada desaceleração da China também pode gerar uma recessão global ou mesmo uma ruptura nas Bolsas internacionais. Até aqui, o problema chinês vem sendo compensado pelo forte crescimento da economia americana desde o ano passado. Os EUA voltaram a ser a força propulsora do mundo. Pela primeira vez, em muitas décadas, a economia americana pode inclusive crescer mais que a chinesa em 2022. As exportações dos EUA caíram muito no primeiro trimestre, provocando uma queda momentânea do PIB, em grande medida porque a China parou de importar como antes. Por sua vez, a China exportou bastante no mesmo trimestre porque os EUA estão comprando muito, com uma economia doméstica a todo o vapor.

O Brasil não cresce há tempos. Desde a pior recessão da sua história entre 2014 e 2016, o país nunca mais se recuperou. O grande capital internacional até gostaria de investir na economia brasileira, mas a instabilidade política e o risco de rupturas democráticas aqui afugentam os investidores de longo prazo. Sim, a nossa democracia está muito frágil. Só vêm, então, para o Brasil o investimento especulativo de curto prazo, aproveitando o carrego da nossa taxa real de juros, a maior do planeta. O iminente fim da alta no ciclo das commodities acrescenta mais uma variável muito preocupante para nós que somos altamente dependentes da China. Houve um tempo em que se pensou que os Brics substituíram os EUA na nova ordem internacional. Mas a verdade é que a China parou de crescer, a Rússia retrocede duas décadas e o Brasil, que poderia ser uma boa alternativa, simplesmente sofre autossabotagem, como também a Índia.

Quem vai quebrar primeiro? Isso ninguém sabe. Mesmo os EUA que estão muito bem agora, com o dólar fortalecido, e voltaram a sustentar praticamente sozinhos o crescimento do mundo hoje, podem derrapar feio pelo caminho, pois estão adiando um encontro marcado com um ajuste monetário mais incisivo, alimentando, assim, uma bola de neve financeira insustentável. O mesmo pode ser dito sobre a Europa e o Japão, precursor do QE, e ainda muito mais radical. Embora não possamos dizer quem vai quebrar primeiro, é possível afirmar que seja lá quem for, vai jogar o mundo todo num abismo terrível em comum. Não há nada na história da economia como a que estamos vivendo agora. Um reset global (ou um novo Plaza Accord) pode não ser desejável, mas inevitável. São muitos os fios desencapados, e qualquer um deles pode detonar a bomba de destruição em massa das economias na era da globalização.

 

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