(crédito: AFP / EVARISTO SA)

Dias depois de sugerir que cabem às Forças Armadas decidir se o país vive em uma democracia ou em uma ditadura, o presidente Jair Bolsonaro mudou o tom para tentar amenizar o mal-estar criado com os militares. Ontem, na solenidade em alusão aos 80 anos do Comando da Aeronáutica, em Brasília, ele disse que as três Forças são a base do seu governo e que elas “devem lealdade absoluta ao seu povo”.

“Quando somos atacados, dependendo de onde vêm esses fogos, tenho certeza de que estamos no caminho certo. Eu prego e zelo pela união de todos, pelo entendimento, pela paz e pela harmonia, mas os poucos setores que teimam em remar em sentido contrário, tenham certeza: vocês perderão”, disparou. “Hoje, nós temos um governo que pensa no seu Brasil como um todo, e a grande base nossa para cumprir essa missão é ou são a nossa Marinha, o nosso Exército e a nossa Aeronáutica.”

Por fim, Bolsonaro destacou que “o Brasil vem experimentando mudança ao longo dos últimos dois anos” e que uma das mais importantes é que, agora, “temos um presidente da República que, com seu Estado-Maior, ministros acreditam em Deus, respeitam os seus militares, fato raro nas últimas três décadas em nosso país”.

Críticas

As menções de Bolsonaro à atuação das Forças Armadas não agradaram à classe política, que viu, nos posicionamentos dele, uma forma de se esquivar das críticas sofridas pelo governo nos últimos dias, em especial, pela falta de ações para garantir a importação de vacinas contra a covid-19 e da matéria-prima para a produção dos imunizantes em solo nacional.

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, afirmou que “Bolsonaro não representa a esmagadora maioria das Forças Armadas brasileiras” e que o presidente não deveria usar o nome dos militares em vão. “Mais uma vez, o profeta da ignorância tenta desviar a atenção da sua incompetência, do seu despreparo, da sua omissão e da sua corresponsabilidade na morte de mais de 210 mil brasileiros pela covid”, reprovou. “Ele não combateu o que devia combater, não estimulou a utilização de máscaras, não seguiu a ciência, combateu a vacina, e agora, para desviar a sua incompetência, vendo que a vacina foi aprovada com independência pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ele tenta falar da democracia e da garantia dessa democracia pelos militares”, acrescentou.

Para Adriano Oliveira, cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco, as sucessivas afirmações de Bolsonaro sobre as Forças Armadas são um problema, pois o presidente coloca em dúvida a importância das instituições.

“Quem nos garante a democracia é a Constituição, e as Forças Armadas estão sob a guarda dela. Na frase que ele cita que é o povo que diz o que os militares devem fazer, ele está enganado. É a nossa lei”, enfatizou. “Bolsonaro flerta com o autoritarismo, mas é combatido pela resistência do Supremo Tribunal Federal, do Congresso e da imprensa. Mas, não há dúvidas de que ele deseja um estado de defesa.”