Maternidade: a dádiva do feminino

“Mas é preciso ter força, É preciso ter raça, É preciso ter gana sempre, Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria, Mistura a dor e a alegria”.

Começo meu texto parafraseando essa canção tão linda de Milton Nascimento, porque para mim, ela revela muito sobre o que é Ser Mãe. Esse Ser tão forte e tão sensível, capaz de gerar, nutrir, parir, cuidar, guiar, sustentar e amar outro ser, que carrega uma parte dela.

Até hoje me lembro da apresentação de Dia das Mães, no ginásio do Colégio Sévigné, em Porto Alegre. Onde as professoras nos vestiram de anjos e cantamos essa música, para nossas amadas mães.

Me lembro das lágrimas nos olhos da minha mãe, que revelavam um misto de alegria e dor. Apesar de muito pequena, eu senti e guardei esse ensejo. No momento, era muito pequena para entender, mas hoje eu sei, hoje eu entendo. Nem sempre é fácil ser mãe, ainda mais quando criamos os filhos sozinhas.

Segui a “maldição hereditária”, não escolhi um “bom pai” e hoje eu crio dois filhos, basicamente sozinha. Eu, minha mãe, e uma parcela significativa mundial rsrs

“ Histórias, nossas histórias, dias de lutas, dias de glória”, parafraseio outra vez, pois acho que tais rimas resumem muito a experiência de Ser mãe.

Fui mãe muito cedo, tinha apenas 20 anos quando minha filha nasceu. E apesar das apocalípticas previsões de que eu tinha “acabado” com a minha vida. Ser mãe construiu tudo que eu sou hoje, quando a Rayná nasceu, eu nasci também!

Lembro dos medos e inseguranças que tive, foram eles que me impulsionaram a seguir e lutar para ser alguém. Durante a faculdade de jornalismo, foram noites em claro, nas vésperas de provas. Foram aulas com a presença dela, graças à complacência e generosidade dos professores, pois eu não tinha com quem deixá-la. “Mas é preciso ter força…”

Hoje, ela faz faculdade no mesmo campus, em que me acompanhava nas aulas matinais, sempre de rosa e com vários enfeites no cabelo.

Um dia depois de anos, em uma festa de jornalistas, uma pessoa me reconheceu: “ Eita, era você que ia para faculdade com a sua filha. Eu me lembro de vocês passando de mãos dadas”.

Assim que consegui me formar, com muita garra e muito esmero, estava trabalhando na televisão, que era meu grande sonho, mas engravidei novamente. A culpa por toda correria com a minha pequena, me fez largar meu sonho e minha vida, para me dedicar ao meu filho.

Ao contrário do primeiro parto, o segundo foi cesárea, e por um erro do anestesista eu quase morri. Depois de oito anos, da primeira gestação, eis que nasce o Pietro. E com ele vários outros desafios. A coragem de dar fim a um “casamento” sem apoio, sem sentido. Sempre com o foco no futuro, e não só no meu, mas no deles. Resolvi andar só, pois é melhor  “andar só do que mal acompanhada”…

Hoje tenho muita gratidão ao universo por ter sido mãe cedo. Ganhei uma grande companheira, que nesse exato momento acaba de me surpreender com uma cesta de chocolates e a mensagem de agradecimento e reconhecimento por toda luta travada até hoje. “Um dos meus maiores desejos é conseguir te devolver ⅓ de todo esforço diário que você fez e vem fazendo para a minha formação…”, diz o bilhete.

Ps: A surpresa era para amanhã, “oficial Dia das Mães”, apesar de que todos os dias são nossos…Mas o porteiro…

E cada dia mais, a cada ano que passa, eu compreendo mais a dádiva da maternidade, intrínseca ao ser feminino, independente da espécie.

Ser mãe, Ser capaz de superar a dor, para dar vida. Ser forte para batalhar e sustentar. Ser colo, Ser graça, Ser amor…

Quero parabenizar a todas as mulheres, todas as mães. Seres que são Portais Sagrados, Resilientes, Fortes, Sensíveis, que deram a luz e dão amor para aqueles que nunca deixarão de ser extensão divina delas mesmas, nessa dimensão. O amor é incondicional.

“Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça,  É preciso ter sonho sempre, Quem traz na pele essa marca possui, A estranha mania de ter fé na vida” …. Às vezes é preciso parafrasear

Francine Marquez é repórter do Diário do Poder e pós-graduada em Ciência Política