SP - MARINA-SILVA-DEBATES-PRESIDENCIÁVEIS-EDUCAFRO - POLÍTICA - A candidata à presidência pela Rede, Marina Silva e seu vice Eduardo Jorge participam do Ciclo de Debates com os Presidenciáveis, na sede da EDUCAFRO, localizada na Rua Riachuelo em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (27). 27/08/2018 - Foto: JÚLIO ZERBATTO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, afirmou nesta terça-feira (13) em uma rede social que a ex-ministra do Meio Ambiente e ex-senadora Marina Silva (Rede), os deputados David Miranda e Talíria Petrone (ambos do PSOL-RJ), o ex-deputado Jean Wyllys e a cantora Preta Gil declaram-se negros “por conveniência”.

Segundo Camargo, Marina Silva foi excluída da lista de personalidades negras da Fundação Palmares porque “não tem contribuição relevante para a população negra do Brasil”.

“O ambientalismo dela vem sendo questionado e não é o foco das ações da instituição”, escreveu — criada em 1988, a fundação tem por objetivo a preservação da cultura negra.

Parte das pessoas atacadas por Camargo reagiu. O partido de Marina Silva divulgou uma nota de repúdio (leia as reações ao final desta reportagem).

Para o presidente da fundação, Marina Silva “autodeclara-se negra por conveniência política”.

“Não é um caso isolado. Jean Willys, Talíria Petrone, David Miranda (branco) e Preta Gil também são pretos por conveniência. Posar de “vítima” e de “oprimido” rende dividendos eleitorais e, em alguns casos, financeiros”, disse.

Segundo Camargo escreveu na rede social, “posar de ‘vítima’ e de ‘oprimido’ rende dividendos eleitorais e, em alguns casos, financeiros”.

Em junho, em uma reunião gravada, Camargo chamou o movimento negro de “escória maldita”, disse que Zumbi era um “filho da puta que escravizava pretos” e criticou o Dia da Consciência Negra – ele defende um decreto para que a data deixe de ser feriado.

No ano passado, Camargo disse que a escravidão beneficiou os descendentes dos negros escravizados que vivem no Brasil.

“A escravidão foi terrível, mas benéfica para os descendentes. Negros do Brasil vivem melhor que os negros da África”, afirmou.

Reações
O partido da ex-ministra Marina Silva, o Rede Sustentabilidade, divulgou uma nota de repúdio às afirmações de Sérgio Camargo.

“A Rede Sustentabilidade vem a público repudiar tal ataque a nossa história, em especial à história dos negros no país, à nomeação de pessoas a quem falta competência para compreender e cumprir a missão institucional dos órgãos para os quais foram nomeados”, diz a nota.

Segundo o texto, a opinião de Camargo “não tem a menor relevância para os critérios de quem a reconheceu como digna dos prêmios, títulos e reconhecimentos”.

“Mas trata-se de lamentar a degradação da gestão pública em nosso país, o desmonte de nossas conquistas sociais, culturais e econômicas até aqui, o gasto de nossos impostos com a remuneração de uma condução tão medíocre de instituições que têm papéis muito importante na nossa organização institucional, que pertence a todo o povo brasileiro e não só aos eleitores e seguidores do atual governante”, afirmou o partido.

O ex-deputado Jean Wyllys, que atualmente é professor nos Estados Unidos, classificou Camargo como um “desqualificado”.

“As decisões administrativas de um desqualificado não mudam a maneira como me identifico tampouco a etnia de meus antepassados por parte da família de meu pai, fator sobre o qual ele não tem nenhuma autoridade para se manifestar. Eu sigo sendo o que sou. Estranho mesmo é um desqualificado à frente de instituição tão importante”, afirmou.

Para a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), Sérgio Camargo “desvia a função primordial do órgão” desde que assumiu a presidência por, segundo afirmou, “atacar a memória dos que vieram antes de nós na luta contra o racismo estrutural”.

“A postura de Sérgio Camargo — baseada em arroubos autoritários típicos do bolsonarismo — definitivamente não condiz com o cargo que ocupa. Não é este homem, com esta postura que reproduz o racismo e envergonha nossa história de resistência, que irá questionar minha realidade enquanto mulher negra. Está mais do que na hora de devolver a Fundação Cultural Palmares ao povo, ao qual ela deveria servir”, declarou a parlamentar.

O deputado David Miranda (PSOL-RJ) defendeu a saída de Camargo da fundação. Para ele, o presidente do órgão é “um inimigo da luta antirracista”. Em junho, uma ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou pedido do partido Rede Sustentabilidade para afastar Camargo do cargo.

“A permanência de Sérgio Camargo na Fundação Palmares envergonha todo brasileiro e brasileira consciente da luta do povo negro contra séculos de racismo estrutural e opressão. O presidente da Fundação é um inimigo da luta antirracista, completamente despreparado e indigno do cargo que ocupa na instituição que leva o nome de um dos maiores heróis da história brasileira: Zumbi dos Palmares. Sérgio Camargo vai para a lata de lixo da história. Já o estou processando pelos reiterados ataques racistas que faz contra mim”, afirmou Miranda.

A cantora Preta Gil não quis se manifestar. O G1 procurou a assessoria da ex-ministra Marina Silva e aguardava resposta até a última atualização desta reportagem.