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Empossado 46º presidente dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden deu vários recados com a escolha dos principais nomes que trabalharão no seu gabinete. A equipe, se todos os nomes forem confirmados pelo governo e aprovados pelo Senado, terá a maior diversidade da história do país. Os principais cargos foram divididos de forma bastante equilibrada entre mulheres e homens. Além de afro-americanos em posições de destaque, Biden escolheu dois latinos, uma asiática, uma indígena e um LGBTQIA+ assumido para compor seu primeiro escalão.

Tal diversidade, no entanto, não significa uma profusão de novatos no governo. Todos os escolhidos de Biden têm muita experiência nas áreas para as quais estão cotados (veja detalhes no quadro). Além disso, o presidente americano resgatou vários ex-integrantes do governo de Barack Obama, do qual ele próprio foi vice-presidente.

Para o professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel, os nomes de Biden revelam algumas estratégias. “Antony Blinken, como secretário de Estado, é uma pessoa do sistema que sempre teve cargos muito importantes, conhece a máquina de Washington e tem uma rede internacional enorme, sobretudo em países aliados. O sinal que o presidente quer enviar é de que esses países podem voltar a confiar nos Estados Unidos”, analisa.

A escolha de um militar para a Defesa surpreendeu o especialista. “O general Lloyd Austin vai controlar o Pentágono. Imaginava um civil no cargo. Mas ele será o primeiro negro e faz parte da tentativa de mostrar que os EUA mudaram e que o novo governo reflete a população do país”, assinala Stuenkel. Também chama a atenção do professor da FGV a pequena representatividade da ala progressista do Partido Democrata. “A única é Neera Tanden (gestão e orçamento), que é alinhada a Bernie Sanders. Com isso, a grande dificuldade desse governo será manter um diálogo produtivo com parte do próprio partido. Porém, Biden é pragmático, e sua equipe reflete isso”, conclui Stuenkel.

Na opinião do diretor do Interlegis no Senado, Márcio Coimbra, ex-consultor do partido Republicano nos Estados Unidos, a diversidade do gabinete de Biden foi uma forma de mandar uma mensagem de mudança. “Depois de um governo como foi o de Donald Trump, a ideia é mostrar o oposto. A escolha de Kamala Harris como vice já apontava isso”, avalia. Ele sustenta que a indicação de Blinken mostra uma preocupação maior com a Rússia. “Se, para Trump, a China era o inimigo, o novo governo tem os olhos mais voltados para os riscos que a Rússia representa. Outra prova disso é que William Burns, novo diretor da CIA, é um diplomata aposentado que foi embaixador dos Estados Unidos na Rússia”, destaca.

Relações multilaterais
A preocupação com a experiência suplanta o cuidado em garantir representatividade às minorias, ressalta Ricardo Mendes, sócio da Prospectiva e responsável pelas operações internacionais da consultoria. “Biden quer se cercar de pessoas com experiência, sobretudo na área diplomática. Isso mostra qual será o eixo da condução das políticas públicas dos Estados Unidos”, pontua. “Para o Brasil, acho relevante a criação de uma posição especial para o clima, cargo de John Kerry, que conhece muito bem a Amazônia”, pondera.

Segundo Riordan Roett, professor e diretor emérito do Programa de Estudos Latino-americanos (Sais) da Johns Hopkins University, o secretário de Estado, Antony Blinken, será encarregado de restaurar as relações multilaterais dos Estados Unidos, enquanto a secretária do Tesouro, Janet Yellen, “atuante de longa data nos assuntos econômicos”, deve conduzir a recuperação econômica. “Alejandro Mayorkas será um ator fundamental para lidar com uma ampla variedade de desafios de segurança”, completa.

Para o professor americano, o procurador-geral Merrick Garland está encarregado de restaurar a integridade do Departamento de Justiça. Garland chegou a ser nomeado por Obama, mas o Senado não avaliou a escolha por considerar que o mandato do ex-presidente estava muito perto do fim. “Será o primeiro indicado para Suprema Corte assim que abrir uma vaga”, aposta Coimbra, do Interlegis.