Não existe ‘bom ladrão’

Segundo a tradição católica milenar, Cristo foi crucificado ao lado de dois indivíduos de alta periculosidade e que haviam recebido a pena capital de serem crucificados ao lado do que se dizia filho de Deus, segundo as autoridades romanas.

Consta da tradição da igreja católica que os dois indivíduos eram chamados por Simas e Dimas. O primeiro foi esquecido pela história. Entretanto, o segundo foi tido como “o bom ladrão” e teria recebido este título pelas suas atitudes diante de Cristo, quando reconheceu que o filho de Deus estava sendo crucificado injustamente, pedindo que intercedesse por ele junto ao pai todo-poderoso, etc e tal. Hoje, Dimas é comemorado com a graça de São Dimas pelos católicos.

Na Administração pública, por algum tempo apareceu a figura do bom ladrão, com o adágio popular “rouba mas faz”. E, por conta disto, políticos de várias gerações foram acolhidos pelo povo, mesmo quando era do conhecimento público de que andavam metendo a mão no erário. Isso ocorria no tempo dos bondes, do voto de cabresto, dos coronéis, os das antigas, onde o caboclo era escoltado até a boca da urna e o jagunço ficava “pastoreando” o voto. Atualmente, com a modernidade e o voto eletrônico, a vigilância se dá  de forma mais sutil: Uma dentadura aqui, quinhentos tijolos acolá, e pronto, temos eleições livres, justas e á prova de fraudes.

E o bom ladrão? Este ainda tem espaço no ordenamento político atual? A resposta é sim. Cheguei a esta conclusão vendo as pesquisas de opinião onde o ex-tudo, ex-presidente, ex-condenado, ex-presidiário, aparece em segundo lugar na corrida presidencial de 2022. Diante deste cenário, fico matutando: Será que esta gente ainda acredita na falácia do “bom ladrão”? Pelo visto, alguns incautos e os componentes da grande mídia desmamada das tetas da velha e boa União, sim.

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Com uma tonelada de informação e contrainformação, as pessoas ficam como baratas tontas, como barco à deriva, seguindo de acordo com a maré, hora pendendo para a terra, hora para o mar.

Vendo uma foto onde aparece Lula e FHC, ferrenhos adversários de outrora, por quem Lula sempre demonstrou o maior desprezo, abraçados como amigos de infância, lembrou-me o poeta Ronaldo Cunha Lima, de saudosa memória, que assim dizia: “Nunca diga de seus adversários algo que não possa se desculpar”. Parece que FHC e Lula fizeram a lição de casa direitinho. Não me surpreenderia se a dupla virasse um trio, está faltando o Ciro Gomes. Aí eu diria que a vaidade separou, e a sede de poder reuniu.

Mas é de bom alvitre que na hora de escolher o mandatário para os próximos quatro anos, o eleitor considerar que esta lorota de bom ladrão pode ter gerado algum benefício na crucificação de Cristo. Agora, na política brasileira, é melhor não arriscar e dizer: vade retro!

Ocino Batista é professor e advogado. Seu e-mail: obsantos@globo.com.

 

opinião e matéria: diariodopoder